Desci as escadas e te encontrei assim, de pé na minha sala me olhando como se buscasse aprovação, como se não tivesse certeza que te reconheceria. Ah, que bobagem! Reconheceria esses olhos verdes mesmo que deles me privasse por décadas. Tão penetrantes que me vi encarando meus pés a fim de transpor os últimos degraus sem cair. Passos nervosos no piso de madeira preenchendo o silêncio.
Paramos frente a frente esperando talvez um sinal do outro lado. Por fim nos abraçamos, aquele meio abraço. E de repente estavamos lá, conversando como se nada nunca tivesse acontecido, como se o tempo nunca tivesse passado, como antes...
E de repente você me contava seu dia-a-dia, tão parecido com o que me lembrava ser. E enquanto eu falava dos meus planos, segurava minha mão. E quando você se levantou pra ir embora foi como levar um soco no estômago, tão forte que me vi incapaz de te pedir pra ficar.
Caminhamos até a porta e prometemos. Prometemos nos encontrar, manter contato, não esquecer.
Promessas vãs, jogadas ao vento. Assim como eu, você também sabia que ao passarmos por aquela porta, elas seriam esquecidas. Talvez por isso as tenhamos feito.
É ilusório cada passo que damos em busca de nós, de mim em você e vice e versa. É ilusório cada fio de esperança que damos e recebemos toda vez que nos encontramos. É ilusório até este encontro, reencontro, desencontro. Porque sabemos que a única promessa de todas que já nos fizemos é de que quando você ou eu estivermos sós, estaremos aqui de novo. Estaremos buscando o que disperdiçamos, o que idealizamos no outro.
É ilusória cada busca que fazemos no outro quando é em nós mesmos que perdemos.