domingo, 27 de junho de 2010

Rascunho

Desci as escadas e te encontrei assim, de pé na minha sala me olhando como se buscasse aprovação, como se não tivesse certeza que te reconheceria. Ah, que bobagem! Reconheceria esses olhos verdes mesmo que deles me privasse por décadas. Tão penetrantes que me vi encarando meus pés a fim de transpor os últimos degraus sem cair. Passos nervosos no piso de madeira preenchendo o silêncio.
Paramos frente a frente esperando talvez um sinal do outro lado. Por fim nos abraçamos, aquele meio abraço. E de repente estavamos lá, conversando como se nada nunca tivesse acontecido, como se o tempo nunca tivesse passado, como antes...
E de repente você me contava seu dia-a-dia, tão parecido com o que me lembrava ser. E enquanto eu falava dos meus planos, segurava minha mão. E quando você se levantou pra ir embora foi como levar um soco no estômago, tão forte que me vi incapaz de te pedir pra ficar.
Caminhamos até a porta e prometemos. Prometemos nos encontrar, manter contato, não esquecer.
Promessas vãs, jogadas ao vento. Assim como eu, você também sabia que ao passarmos por aquela porta, elas seriam esquecidas. Talvez por isso as tenhamos feito.
É ilusório cada passo que damos em busca de nós, de mim em você e vice e versa. É ilusório cada fio de esperança que damos e recebemos toda vez que nos encontramos. É ilusório até este encontro, reencontro, desencontro. Porque sabemos que a única promessa de todas que já nos fizemos é de que quando você ou eu estivermos sós, estaremos aqui de novo. Estaremos buscando o que disperdiçamos, o que idealizamos no outro.
É ilusória cada busca que fazemos no outro quando é em nós mesmos que perdemos.


quarta-feira, 9 de junho de 2010

Abraço apertado

Começou assim, uma troca de olhares e um meio abraço. E foi dessa forma por um bom tempo, até que a vontade do abraço inteiro se fez mais do que necessária, imperativa. Mas agora, mesmo quando os dois lados pedem qualquer coisa a mais que isso, o abraço inteiro permanece. Abraço de saudade, de cumplicidade. Na maior parte das vezes apertado, como os corações dentro de cada parte desse abraço.
Bem que queriam voltar ao meio abraço, ao embaraço de cada olhar. Como se fugissem do que vem a seguir, mas secretamente desejando reviver cada momento do caminho que os trouxe até aqui. Um lado talvez pensasse "Quanto tempo desperdiçado quando o que tenho aqui é tão igual ao que sentes ai", ao que o outro lhe responderia "Que bobagem, o tempo nada mais fez do que tornar maior o que já era bom".
Entre acertos e tropeços os que os manteria em pé seria o elo mais simples: os dedos entrelaçados numa demonstração boba de afeto. Como numa brincadeira infantil em que duas crianças amarram os pés lado a lado e tentam caminhar e muito depois percebem que desde o princípio o segredo era esse, acertar junto e errar junto também.
Nesse descompasso andam, se acompanham no desenrolar de cada dia como não poderiam se imaginar fazendo tempos atrás e como não conseguem se imaginar sem a partir de agora. Um passo ritmado, tum, tum... tum, tum... suave até, de quem acompanha, mas também é acompanhado. De quem quer próximo o que está longe. De quem quer tantas coisas, mas precisa só de uma: um abraço apertado.