terça-feira, 20 de abril de 2010

Nó na garganta

Quando chegar a hora a vida tratará de gritar na minha frente o que eu não quis escutar em sussurros de você. As circunstâncias da vida nos coloca por vezes em encruzilhadas onde devemos escolher entre nós e nós mesmo. Essa é a conseqüência de todos os nossos atos, o resultado de cada pequena escolha no passado. É o que você não soube aprender sozinho.
E o tempo é relativo, mas ele vem. Ele vem para todos, de uma forma ou de outra. E o que sobra é pensar no que se aprendeu e o que valeu a pena. E a única coisa que posso prometer além de que não explicarei sentidos perdidos em entrelinhas é que não esquecerei. Por ser a única coisa da qual agora tenho certeza. Afinal, quem pode prometer esquecer?
Ah... não. Tenho certeza de outra coisa também. Que roubaria trechos de todos os poemas, textos e músicas que andei lendo ultimamente para poder te contar tudo o que eu queria te dizer, mas não vou. Eles podem saber explicar muito bem emoções, mas não podem explicar minhas razões. Nem eu mesma poderia explicar minhas razões.

"Quando você vai embora de nós o pronome parte-se ao meio, você diz que só leva o "s", mas de que adianta? Se comigo sobra o nó... na garganta."

Esse nó, ainda na minha garganta.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Maktub

Sabia que tinha alguma coisa fora do lugar em mim. Eu era uma soma de todos os erros:
Bebia, era preguiçosa, não tinha um deus, idéias, ideais e nem me preocupava com política.
Eu estava ancorada no nada, uma espécie de não-ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante, dava muito trabalho.
Eu queria mesmo um espaço sossegado e obscuro para viver a minha solidão.
Por outro lado, de porre, eu abria o berreiro, pirava, queria tudo, e não conseguia nada.
Um tipo de comportamento não se casava com o outro. Mas, não me importava. Ninguém se importava... Até você aparecer.
Poderia dizer que você surgiu como um anjo, e me salvou. Mas soaria clichê, e isso é um resumo de tudo que você não era. Me fez ter algo em que acreditar e um motivo para me levantar cada manha. Você era tudo aquilo que eu queria ser, tudo aquilo que eu queria ter para sempre. Você foi minha vida, e eu só mais um capitulo da sua. E agora... você se foi.

“Let's pretend that I moved on
Then I'll tell myself that life goes on without you
Open my eyes, look deep inside
I run away...”

Você se foi... E agora todas as qualidades que você dizia ver em mim, parecem em vão. Todo o meu esforço em parecer interessante... tudo aquilo que lutei para ser por você. Tudo se foi, nada parece merecer o mínimo esforço. Nem mesmo os meus defeitos, dos quais antes me orgulhava tanto...
Precisava ouvir o som dos seus passos se aproximando, a sua risada infantil... Como queria poder voltar atrás e fazer tudo melhor do que tinha feito. Eu queria gritar o mais alto que podia, na esperança que você me ouvisse e viesse me dizer que tudo estava bem, que você não foi embora. Queria um porre para esquecer que você não estava mais aqui. Mas não conseguia, simplesmente não conseguia. E a imagem do seu rosto infantil, martelando em minha mente me assombrava.
As luzes do quarto apagadas. Só a fraca luz entrando pela janela entreaberta. O som dos carros lá fora. E tudo que precisava era mais um dia com você. Sem porquês.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Logo nós

Na minha frente ela me encara. Cabelos sobre os ombros e uma expressão cansada no rosto, olhos vermelhos. Olhos que não sabem mentir, ou sabem? O cigarro abandonado no cinzeiro e a garrafa vazia são nossas únicas testemunhas. As pontas dos dedos formigando com a pressão que faço contra o marmore frio, mas não consigo abaixar os olhos. É quase um desafio, quem vai ceder primeiro?
Ensaio movimentos bruscos para pegá-la de surpresa, mas tenho medo de que ela não se mexa. Não me movo um centímetro sequer. Não consigo me mexer, hipnotizada por essa forma de não ser, não sentir. Tenho medo de que ela tenha aprendido mais sobre mim do que eu sobre ela e que seja agora capaz de me ler, de me enganar. Mas tenho mais medo ainda de que como eu, ela não me reconheça.
Nossos segredos compartilhados, nossas conversas intermináveis, é como se tudo isso não fizesse mais parte de nós. Divididas antes entre conversas sem futuro nos descobrimos em um futuro sem conversas. Tenho vontade de agarra-la pelos ombros, gritar com ela. Dizer que ainda dá tempo, que ainda me importo. Mas fico muda, assim como ela.
E logo nós duas que costumávamos nos entender sem usar nenhuma palavra. Que conheciamos nossos medos mais secretos, nossos sonhos. Logo nós que nos reconhecíamos em cada gesto, cada expressão. Logo nós...