segunda-feira, 27 de junho de 2011

Mania


Você falava sem parar e essa era só mais uma de suas milhares de manias. Coisas que me afastavam e me apoximavam de você como a correnteza do mar. Querendo-te e afastando-te.
Mania de apertar minha mão e encarar o chão, de morder os lábios e sempe terminar uma conversa como começou. De me abraçar como se o mundo fosse acabar e... a mania de mudar de assunto. Mania de ser forte, de não perder a graça, o encanto, o mistério. Essa mania de falar da lua como se ela influenciasse seu humor como influencia a maré. Mil manias entelaçadas que tentam disfarçar sensibilidade e permeabilidade. Mania de querer próximo o que afasta e de aproximar o que quer longe.
Eu andava pela rua chutando pedras esses dias disfarçando essa vontade imensa de bater na tua porta, de te ligar só pra dizer "oi" e pronto. E pensando em todas aquelas coisas que deixo ficarem presas aqui no fundo da garganta, quase saindo. Aquele espacinho de garganta que parece um nó. Eesse nó que vai apertando e apertando e vai dando um desespero.
E foi o nó na garganta que me fez perceber quanta pedra ando chutando pra dizer o que já disse e não preciso dizer e quanta coisa eu deixei de ouvir po causa do barulho das pedras rolando. E percebi que a tua mania é a minha mania. Essa mania de fingir não sentir, de se segurar. De abraçar apertado e desconversar. E foi por causa das pedras que andei chutando na rua e dessa chuva fina e gelada caindo lá fora que eu acabei na sua porta segurando uma garrafa de vinho barato. Sem desculpas ou motivos, só um vinho barato.
E a maré está alta, amor... a lua está cheia por trás dessa nuvem.

sábado, 23 de abril de 2011

Névoa

Hoje tive um sonho muito estranho, envolto em névoa. Desses sonhos que parecem premonição. Estávamos em uma casa grande, cheia de quartos e muito confortável. Quando entramos ali parecia aconchegante e quente, mas me senti como se estivesse invadindo o lugar de alguém, um refúgio. Você me acompanhava com confiança, como se conhecesse cada parte daquele lugar, mas me deixava guiar o caminho.
E de repente, como é muito comum nos sonhos, tudo tinha mudado. Pessoas estavam por todos os lados conversando, rindo e apesar de isso parecer ainda muito bom, você não estava lá. Foi ai que a névoa apareceu. Como um estalido no ouvido e leve surdez que se segue disso, ou a sensação depois de beber alguns copos de bebida. O que as pessoas falavam ao redor era desconexo e sinceramente não importava muito. Rodava a casa como louca e... parecia te ver em cada sombra conversando com outro alguém que não eu. Cada roda de amigos, cada canto escuro. Escutava sua risada, sentia seu cheiro e não te via. No sonho a casa ainda era grande e cheia de quartos, mas já não tinha teto e grama crescia furtiva por entre as frestas do piso encerado.
Acordo assustada. Alugém está batendo na porta e me deixando nesse estágio entre sonho e consciência onde você não sabe dizer o que é real ou não. O coração acelerado, confusão. Uma necessidade indefinida e indescritível de te ver, escutar sua voz... te abraçar. Olho ao redor... estou sozinha.

sábado, 9 de abril de 2011

"O amor acaba"


A luz no fim do túnel se apaga, "o amor acaba." Mas quem liga? Gosto mesmo é do escuro. Do meu conforto desconfortável, de conversas intermináveis, de um querer sem querer... Gosto mesmo é das frases gritadas sem pudores... de correr e gritar até faltar o ar. De madrugadas com um copo na mão, o cigarro na outra e uma discussão eterna a respeito de uma filosofia barata. Porque no final são essas coisas que tornam momentos inesqueciveis, algo que vem de dentro.
Não precisamos de um caminho, um objetivo... precisamos mesmo, e desesperadamente, de poesia, de música e de pessoas dispostas a caminhar junto, a errar e a rir de si mesmo. Precisamos nos importar menos com a opinião dos outros e até com o nosso próprio julgamento. E quando tudo estiver perdido vou precisar da sua mão segurando a minha e de que me diga "joga tudo pro ar e vem comigo"... e eu vou.

terça-feira, 1 de março de 2011

Formigas

Formigas caminham por todos os lados. Perdidas. O rádio toca alto no meu ouvido uma música que não escuto. Vozes, frases disconexas, sons diversos... uma soma de coisas sem sentido que de alguma forma fazem todo o sentido de acontecerem no mesmo momento. Como num sonho ou... como chamam? Dejá vu.
A janela aberta enquanto a chuva cai lá fora e você está ai, provavelmente na janela vendo a mesma chuva que eu. A sensação é de passar por isso sempre, e todas as vezes... com você. A distância, palavras trocadas na rotina do dia-a-dia pra me fazer sentir mais perto. Mas não é como antes. Lembro de pouco tempo atrás me sentir parte de outro mundo que não o seu. Algo que era quase sufocante. Não mais.
Esses acordes de gitarra me lembram alguma música que costumavamos escutar junto, mas que agora não consigo me lembrar qual. Lembro de praças e cigarros compartilhados. De poesias e textos lidos embaixo de árvores. De conversas através do olhar. De passar a tardes inteiras deitada em sua cama por nenhum motivo em especial.
Uma formiga interrompe meu pensamento caminhando sobre o livro em minhas mãos. Percorrendo frases que não estou realmente lendo, provavelmente atraída por restos de comida que você derrubou por aqui. Isso me faz lembrar o quanto me incomoda te emprestar meus livros ou qualquer outra coisa, mas como sempre acabo cedendo.
Falo de você sempre. Te incluo em conversas e lugares onde não esteve e as vezes me pego falando de coisas que fizemos trocando seu nome por de outras pessoas. Talvez seja uma maneira te manter sempre perto, talvez seja uma mania boba ou maluquice. Só sei que o faço e na maior parte do tempo... inconscientemente.
Talvez você seja a única pessoa no mundo que consiga entender minha relação a distância. Gosto de você ai, presente inconsciente e acidentalmente em quase tudo que faço aqui. Talvez você seja a única pessoa no mundo que compreenda que tudo aquilo que nos separa... é aquilo que nos une.